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There are no translations available. CAHORA BASSAFonte: http://choachibata.blogspot.com/2005_06_01_choachibata_archive.htmlAutor:
Em determinado momento da minha vida fui convidado a assumir o lugar de Director de Pessoal da Hidroeléctrica de Cahora Bassa, na sede da empresa situada no Songo, o que significando o meu regresso a Moçambique, nem por um momento me fez hesitar na aceitação desse desafio. Se de facto era assim ou tudo não passa de um «conto africano», nunca se saberá ao certo !
A Hidroeléctrica de Cahora BassaA Hidroeléctrica de Cahora Bassa SARL, (HCB), como empresa, nasceu num período conturbado da história dos dois países: Portugal e Moçambique. De facto, quando foi criada em meados de 1975, enquanto o primeiro dava os primeiros passos numa democracia ainda mal cimentada, o segundo caminhava a passos largos para uma independência com muitos sobressaltos. O seu objectivo era, e continua a ser, o de gerir uma barragem construída no Zambeze que fornecesse energia abundante, fundamentalmente à África do Sul, através da ESKOM - sociedade sul-africana de produção e distribuição de electricidade -, mas também a Moçambique. Para se compreender, com alguma clareza, como cresceu este enorme projecto de desenvolvimento teremos que recuar no tempo, reflectindo sobre uma muito sintética caracterização do espaço em questão, com vista a descobrirmos esse fio condutor que liga a história aos homens.
O Zambeze grandiosoNo coração de África nasce um dos maiores rios do mundo: o Zambeze. Integrando territórios de países como o Congo (ex-Zaire), Angola, Zâmbia, Namíbia, Botswana, Tanzânia, Malawi, Zimbabwe e Moçambique, a sua bacia hidrográfica espraia-se por uma área de cerca de um milhão e duzentos mil quilómetros quadrados, ou seja, mais de treze vezes a superfície de Portugal continental ou mais de uma vez e meia a de Moçambique. Com uma extensão de aproximadamenteFuncionando como eixo desta vasta área, o Zambeze possibilita a navegação desde o Zumbo, na fronteira de Moçambique com o Zimbabwe e a Zâmbia, até ao paredão da barragem de Cahora Bassa, construída no exacto local onde se situavam os famosos rápidos com o mesmo nome e que permitiu, a montante, o aumento do calado das embarcações que por ali queiram navegar. A fundamental diferença entre o antes e o depois da construção da referida barragem, em relação ao troço a jusante de Cahora Bassa que segue por mais de quinhentos quilómetros até à foz, foi a possibilidade de regularização do rio, proporcionando um caudal mais constante, factor altamente favorável às populações que habitam nas suas margens.
Contribuindo para os elevados caudais médios do Zambeze que, em Moçambique, oscilam entre os 900 (na estação seca que, em regra, decorre entre Maio e Outubro) e os Apesar dessa contingência inesperada, e de ter sido necessário abrir as oito comportas da barragem, bem como o descarregador de superfície, todo o empreendimento se comportou à altura do desejado, tendo esta prova sido considerada um importante teste à resistência e eficiência do projecto ( a fotografia da barragem que consta do blog comprova esse momento descrito).
O povoamento humano do Zambeze Não tendo certezas sobre as populações que viviam no actual território de Moçambique em épocas mais remotas, a maior parte dos historiadores inclina-se para as classificar como comunidades de caçadores e pescadores, a exemplo do que se verificava noutras áreas contíguas. Surge, nesta mesma época, um novo Estado que adoptando o nome dos seus reis, o reino do «Mwene Mutapa» ou "Monomotapa", e que veio a deter um imenso território que se estendeu pelo vale do Zambeze, até às imediações da cidade de Tete, apenas desaparecendo no início do nosso século - a importância deste reino poderá ser facilmente calculada se pensarmos que a evocação do seu nome, na Europa dos Descobrimentos, era equivalente à imagem de riquezas sem fim, em busca das quais diversos aventureiros portugueses de então se dispuseram a subir o Zambeze, procurando descobrir a "galinha dos ovos de ouro". É este o cenário que os primeiros portugueses encontram quando se estabelecem na costa oriental africana a partir do final do séc XV e, a pouco e pouco, tomam contacto com o Zambeze. (1) Na vila do Songo, onde se situa a barragem de Cahora Bassa, existem ainda hoje as ruínas de um "zimbabwe" - diminuto quando comparado com as do "grande zimbabwe" existentes no actual Zimbabwe - mas que ainda assim merecem ser vistas para se compreender o que era um zimbabwe, fortificação situada em ponto elevado cercada de muralhas e dentro das quais se algomeravam as habitações.
Os primeiros contactos dos portuguesesA primeira notícia que, em Portugal, se encontra deste magnífico rio chega-nos através do «Diário de Álvaro Velho» da viagem de Vasco da Gama de descoberta do caminho marítimo para a Índia. Neste relato, ao actual Zambeze chamaram o "Rio dos Bons Sinais", sinais que não eram, de acordo com o narrador daquela viagem, os do interior da terra que nessa altura tocaram, mas os que indicavam que íam chegando para onde desejávam, ou seja, à Índia. (1) Paradigmático desta passagem pelos portugueses nesta época é que ainda hoje a primeira vila em território da Zâmbia se chama "Feira" (do outro lado do Zumbo em Moçambique, atravessando a albufeira de Cahora Bassa e cujo nome deriva das feiras então realizadas pelos portugueses naquele local) - ver localização no mapa (2) O liceu na cidade da Beira onde fiz o ensino liceal até ao 7.º ano, tinha precisamente o nome de Pero d'Anaia.
Os prazos da CoroaPouco mais de um século tinha passado, desde a primeira viagem de Vasco da Gama, e a Coroa Portuguesa tenta implantar um método de "ocupar" as terras africanas, de entre os quais o sistema dos «prazos» foi, sem dúvida, um dos mais importantes - em troca de uma renda, então chamada "foro", uma determinada parcela de terra, bem como os seus habitantes, era entregue por "três vidas", tendo como contrapartida os prazeiros de, além do pagamento da renda, manter os caminhos em bom estado, defender o seu espaço e cobrar o imposto.Curiosa, no mínimo, era a forma como, inicialmente, a sucessão dos prazos era feita, pois fosse por tradição local - as sociedades matriliniares -, fosse pela tentativa de garantir o máximo de sangue europeu, a lei estabelecia a herança através de "pessoas do sexo feminino, descendentes de portugueses da Europa com obrigação de casarem com portugueses de igual origem; e na sucessão das vidas a fêmea excluía o varão" - isto é, as mulheres tinham sempre prioridade na obtenção de um prazo e a sua herdeira era a filha mais velha, apenas no caso desta não existir, o prazo passaria para o filho ou para o marido.
Teoricamente, eram motivos suficientes para a Coroa retirar as terras aos seus possuidores, o casamento em desconformidade com a lei, o facto de não residir no prazo ou, ainda, o de não o valorizar - todas estas dificuldades, impostas por Lisboa, pretendiam o fortalecimento da colonização europeia, bem como travar o crescimento dos prazos, mas nada disto foi conseguido, antes pelo contrário. De facto, se por um lado rareavam os portugueses europeus, por outro o escoamento dos produtos agrícolas do interior era difícil, senão impossível, pelo custo que acarretava, e para agravar este panorama, existiam comércios altamente rendíveis que comprometiam o futuro da agricultura, tais como o marfim e o ouro e, fundamentalmente, os escravos, que possibilitavam, a quem os transaccionava, a rápida obtenção de fortunas incalculáveis e, com elas, o poder. Foi deste modo que muitos dos senhores dos prazos viram aumentar o seu território e, consequentemente, a fortuna e poder, de uma maneira que talvez os Governos de então nem suspeitassem vir a ser possível. Existem relatos de prazos de proporções impressionantes: "Por exemplo: o prazo de Cheringoma situado no local entre a futura Beira e o Zambeze (com uma frente marítima de Outro prazo, no interior do distrito de Quelimane, tinha em 1843-1846 uma superfície superior à de Portugal e possuía 30 000 habitantes”.
As companhias concessionáriasDurante o séc. XIX, os países europeus aumentam o seu interesse por África quer pela procura de novos mercados, quer pela necessidade de encontrar novas fontes de matérias-primas, quer por outras razões mais ou menos discutidas entre especialistas. Algumas nações europeias mais influentes - como a Alemanha ou a Bélgica - não detêm colónias africanas e é exactamente em Berlim que se organiza uma conferência onde se pretende discutir a "partilha de África".Ao argumento português da "posse histórica" das suas colónias, as outras potências respondem com a decisão de que esta só será tomada em consideração, se houver a posse efectiva do território reclamado. Ou seja, à posse de colónias precedia o domínio militar da costa (não tendo a proposta inglesa, de estender essa exigência ao interior, obtido vencimento).
A necessidade de cumprir o exigido levou Portugal, país sem gente e meios suficientes, a encontrar outras alternativas "arrendando" parte da sua grande colónia mais afastada - e por isso mais difícil de administrar - ao capital estrangeiro, com o intuito de melhor poder exercer os direitos territoriais que julgava deter. Estes "arrendamentos" corporizaram-se na concessão de amplas parcelas de terra a companhias privilegiadas. Foram três as mais importantes companhias constituídas, no centro e norte de Moçambique: Companhia de Moçambique: negociada em 1888, foi a primeira e mais importante, tendo sido dotada de poderes majestáticos sobre os distritos de Manica e Sofala, entre os quais o poder de cobrar impostos, comprometendo-se a construir infra-estruturas básicas e a atrair colonos; Companhia do Niassa: seis anos mais nova que a anterior e dotada dos mesmos poderes, nunca chegou a ser tão importante - com a concessão inicial de promover a ocupação de um espaço, desabitado por europeus, a norte do rio Lurio, por vicissitudes várias acabou por desistir dessa pretensão e dedicou-se, fundamentalmente, a cobrar impostos e a fornecer mão-de-obra africana às minas da África do Sul, sendo "a própria produção tradicional dos africanos que alimentava as vendas ao exterior e o rendimento geral da Companhia"; Companhia da Zambézia: de constituição semelhante às anteriores, embora não possuísse os mesmos poderes, detinha a concessão de grande parte do distritos de Tete onde tentou, sem contudo o conseguir, encontrar recursos mineiros - fomentou a produção e exportação de óleo de palma e subarrendou parte das suas terras, tanto a norte como a sul do Zambeze à Companhia de Açúcar de Moçambique, mais conhecida como "Sena Sugar Estates". A exemplo do que os Governos da I República tinham iniciado, a política económica do Estado Novo - enveredando pela "nacionalização" dos territórios coloniais – esforçou-se por fazer desaparecer os privilégios das grandes companhias o que, pouco a pouco, acabou por conseguir.
A "descoberta" de Cahora BassaEmbora existam notícias de algumas expedições, mais ou menos científicas, ao Zambeze, é em meados do séc. XIX que estas se generalizam, como os de Livingstone, Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo ou Roberto Ivens, viagens de exploração essas que, umas mais que outras, trazem a público descrições sobre o interior de África, até então quase totalmente desconhecido.Foi contudo Livingstone que mais se aproximou do local onde hoje se encontra a parede da barragem de Cahora Bassa - iniciada em
Tendo falhado a primeira tentativa, deixou os seus companheiros em Tete e voltou à Europa em busca de maiores apoios, regressando ao Zambeze passados cerca de três anos, apetrechado com embarcações desmontáveis que pensa serem capazes de vencer a forte corrente - depois de várias tentativas, a última das quais quase fatal, desistiu do seu propósito afirmando que era impossível passar as cataratas de Cahora Bassa; no entanto, como se verá mais adiante, as cataratas a que chegou ainda ficavam distantes da famosa garganta. Só no início do séc. XX, mais exactamente no ano de 1905, um cientista português - Gago Coutinho - conseguiria chegar até onde, ao que parece, nenhum outro europeu tinha chegado. Foi dele que ficou a "explicação" do nome de Cahora Bassa. Fazendo parte de uma viagem de carácter científico cujo objectivo era o «estudo das relações hidrográficas dos dois grandes rios [Congo e Zambeze] e a exploração da parte desconhecida do Zambeze entre os dois pontos navegáveis, o Zumbo, a mais longínqua povoação localizada no curso inferior do rio, já em território moçambicano, e Tete», Gago Coutinho procedeu a levantamentos cartográficos, inventariou recursos minerais e vegetais, exaltou as potencialidades energéticas com a possibilidade de tomar o Zambeze navegável, da foz ao Zumbo. Do cimo do pico de M'Panda Unkua conseguiu vislumbrar as claras diferenças entre o Alto e o Baixo Zambeze, referindo-se nos seguintes termos, relativamente à navegabilidade do rio: «a navegação feita em escaleres terminava ali pelo Baixo Zambeze. Daí para cima a água vem a passar tão subtil num pequeno ribeiro de baixa espessura que nos parece não poder comportar a imensa toalha líquida que se estende em quilómetros de largura. As margens que o rodeiam são igualmente baixas e quietas, e o rio para cima passa a oferecer uma paisagem completamente diferente, num contraste abrupto e inquietante, fecha a passagem e formando um imenso túnel, de altura descomunal, onde as águas batem com violência. A navegação não avança dali». Continuando a sua jornada para montante, Gago Coutinho passa pela Porta do Inferno, mesmo O termo Cahora Bassa foi então explicado, pelo explorador português, como significando, no dizer das gentes do Baixo Zambeze, "acabou o trabalho” ou, se quisermos uma tradução mais literal, "apodreceu o trabalho". Significava isto que, como não era possível aos habitantes da região passar com as suas embarcações a partir daquele ponto, a viagem de subida do rio acabava ali e, portanto, os trabalhos também - por outro lado é curioso notar o desconhecimento do termo por parte das, então raras, populações do Alto Zambeze que, inclusivamente, achavam o nome "caricato e humorístico”. Deve-se, pois, a Gago Coutinho o primeiro estudo científico, objectivo e sustentado, da área de que falamos, bem como do primeiro desenho do percurso do Zambeze que, por ser diferente do desenhado por Livingstone, o levou a fortalecer a ideia que o explorador botânico não teria reconhecido a totalidade do troço de Cahora Bassa, nomeadamente em relação à garganta do mesmo nome - relativamente a esta, Gago Coutinho, com o objectivo de a melhor ilustrar aos seus conterrâneos, escreveu num artigo que "(...) aos que, em Lisboa (...) desejarem adquirir uma noção mais concreta sobre o que é essa misteriosa quartelada do grande Zambeze, poderemos indicar-lhes que a Cabora-Bassa, não tendo mais largura do que a nossa praça do Rossio, está contudo entalada entre montes seis a oito vezes mais altos do que o elevado morro do Castelo de S. Jorge, que, com os seus mesquinhos cem metros de altura, já tanto nos assoberba quando o avistamos cá de baixo, (...). A água, na estação seca, ocuparia a parte central já empedrada, (...) mas nas grandes cheias, toda a elevada casaria seria coberta e a corrente revolta iria bater nas ruínas do Carmo e enferrujar a fábrica do relógio.” Cerca de cinquenta anos depois da viagem exploratória de Gago Coutinho, em 1956, um outro técnico - o Prof. Alberto Abecassis Manzanares, falecido recentemente em 2004 - haveria, também ele, de se referir ao Zambeze em território moçambicano como um troço que, “conta com as maiores possibilidades económicas do que porventura qualquer outro troço de rio idêntico em África ou até noutros continentes - o estudo do esquema do seu aproveitamento integral não pode ser obra de anos, nem talvez de uma década. Se for considerado que no troço [moçambicano] a energia potencial do rio se aproxima dos 50 biliões de unidades (kwh), dos quais mais de metade são recuperáveis num troço relativamente curto - visto, tanto quanto se conhece agora, ele não ir muito além de
O Estado Novo e Política Colonial Convencidos da "missão civilizadora" que Portugal detinha, historicamente, nas suas possessões ultramarinas, em especial em África, os governantes portugueses, que se impuseram através do pronunciamento militar de 28 de Maio de 1926, iniciaram a construção de um instrumento teórico-legal, em relação àqueles espaços, que se corporizou no Acto Colonial de 1930, inserido na Constituição de 1933. Na realidade, viviam-se os tempos dos "impérios coloniais" e o Governo Português de então, a exemplo de outros, mostrava-se preocupado no desenvolvimento dos espaços que considerava essenciais para a sua própria sobrevivência.
A Missão de Fomento e Povoamentodo Zambeze (MFPZ)Como já foi possível observar, tanto o Zambeze como a sua área de influência eram há muito conhecidos dos portugueses, e desde há longos anos se conjecturavam as suas riquezas escondidas, embora, por motivos diversos, entre os quais a nova visão e posicionamento político internacionais do Governo Português do pós-guerra, as experiências de desenvolvimento em áreas semelhantes, como foi o caso dos projectos de desenvolvimento da zona do rio Tennesse, nos Estados Unidos da América, só em meados dos anos 50 se começou a olhar para a bacia hidrográfica do Zambeze como uma estrutura de desenvolvimento económico capaz de se autofinanciar a partir de um "motor de arranque", que após aturadas discussões, avanços e recuos, propostas e contrapropostas, pressões políticas e económicas, etc., viria a ser a barragem de Cahora Bassa.
Com efeito, a tomada de consciência das vastas riquezas por explorar naquele território, aliada à necessidade de inverter a má imagem que Portugal detinha a nível internacional relativamente ao desenvolvimento das suas possessões ultramarinas, levam o Estado Português a incrementar o estudo em várias regiões africanas, nomeadamente na bacia hidrográfica do Zambeze em território moçambicano. Tratando-se neste caso especifico, de uma extensíssima área a estudar, foi necessário criar uma instituição que, dotada dos competentes recursos, fosse capaz de cumprir o projecto em tempo útil, que se desejava o mais curto possível - é deste modo que, em 1957, nasce a Missão de Fomento e Povoamento do Zambeze (MFPZ), com a finalidade de "proceder ao reconhecimento sistemático dos recursos da bacia hidrográfica do rio Zambeze em território de Moçambique, organizar os planos de aproveitamento e desenvolvimento dos mesmos e elaborar os projectos que para tal lhe forem determinados", cuja orientação e a elaboração dos estudos que conduzissem ao plano de desenvolvimento da área em questão, em colaboração com aquela entidade pública, ficaram a cargo da Hidrotécnica Portuguesa (HP). A diversidade de assuntos a tratar, obrigou a constituição de vários grupos especialistas em cada uma das áreas, as Brigadas de Agricultura, de Engenharia Hidráulica, de Geologia e Prospecção Mineira e de Estudos Económico-Socias, tratavam, respectivamente, de seleccionar e caracterizar as áreas de possível aproveitamento agrícola, classificando-as segundo a sua capacidade de uso, de efectuar os reconhecimentos necessários à definição das obras a efectuar para a produção de energia eléctrica, rega, navegação e regularização fluvial, de fazer o reconhecimento e avaliação primária do valor potencial dos recursos do subsolo, de inventariar e analisar as actividades e os recursos humanos, bem como estabelecer, as formas mais aconselháveis, social e economicamente, de mobilizar os recursos. Por outro lado, aos Serviços de Silvicultura e de Veterinária, competiria ao primeiro, indicar as manchas de floresta indígena com valor económico e sua potencialidade para produção de madeiras, as manchas de floresta que necessitassem de protecção e as que apresentassem aptidão para o estabelecimento de florestas exóticas, e ao segundo, indicar e classificar as zonas onde pudesse existir interesse económico para explorações de gado de carne, de produção de leite e outros, bem como estabelecer os métodos técnica e economicamente aconselhados para a exploração de gado para os diferentes fins. Em 1958, tal como tinha sido programado, a Hidrotécnica Portuguesa apresentou um «relatório preliminar» que, em três volumes, condensava os estudos efectuados pelos vários grupos de trabalho da MFPZ, relatório esse que estava dividido em três blocos: (1) caracterização geral do espaço em estudo, (2) possibilidades de desenvolvimento, (3) e o programa de trabalhos e respectivos custos. Embora, com um pequeno atraso sobre o prazo previsto, mas apenas três anos passados, foi dado a conhecer o «esquema geral» que reunia a totalidade dos estudos realizados e apresentava um "esquema de arranque" que, a ser aprovado, serviria de apoio à estruturação do Plano Geral, que dado à luz em 1965, foi o corolário de quase uma década de investigações levadas a cabo por várias dezenas de técnicos, dos quais mais de um terço com formação universitária, apoiados com os meios necessários, desde viaturas todo-o-terreno a embarcações, aeronaves e equipamento mais especializado. Contendo o anteprojecto das obras escolhidas, bem como o planeamento dos empreendimentos considerados vitais para o início do que se pensava vir a ser o desenvolvimento de uma das mais atrasadas, mas paradoxalmente mais ricas, áreas do então Ultramar Português, o Plano Geral defendia a criação de actividades passíveis de gerar um crescimento sustentado que, "mais cedo ou mais tarde viesse a transformar o panorama económico e social", actividades que eram, grosso modo, a produção de energia - onde o aproveitamento de Cahora Bassa, dado o baixíssimo custo da energia, era primordial - e, ligada àquela, a exploração de minérios e a sua transformação nas proximidades, a que se aliava o desenvolvimento agrícola com a construção de complexos sistemas de rega alimentados, tanto pela albufeira a criar a montante de Cahora Bassa, como por um Zambeze regularizado a jusante. Feito o estudo, era, agora, necessário analisar a viabilidade político-económica dos projectos propostos.
O Grupo de Trabalho para o Zambeze e a decisãode construir Cabora BassaCom o objectivo último de coordenar e orientar as medidas necessárias para o estudo, projecto e lançamento da construção da Barragem de Cahora-Bassa, empreendimento tido, por muitos, como essencial para o estímulo económico-social daquela região, foi criado, por despacho ministerial, o Grupo de Trabalho para o Zambeze (GTZ), em cujas competências se encontravam, entre outras, a de ajustar as conclusões dos estudos elaborados pela MFPZ às linhas directrizes dos Planos de Fomento.
Foi na vigência deste grupo de trabalho que se realizou o concurso da construção da barragem e, com a colaboração dos Ministérios das Finanças e dos Negócios Estrangeiros, se ultimaram as negociações, difíceis e demoradas, para a adjudicação daqueles trabalhos. De facto, existiam duas opiniões acerca da construção de Cahora Bassa - uma contra, que argumentava com as difíceis condições existentes no terreno, nomeadamente pela crescente instabilidade decorrente da guerra pela independência iniciada pouco tempo antes, e pelo enorme endividamento do Estado Português que, não tendo possibilidades de financiar a totalidade da obra, era obrigado a assumir, e outra a favor contrapondo que, a concretização do empreendimento possibilitava o reforço da presença portuguesa, o desenvolvimento do território e o apoio de parte da comunidade internacional, envolvendo-a directamente no empreendimento, como se veio posteriormente a verificar com a participação de empresas francesas e alemãs no consórcio vencedor (ZAMCO).
GABINETE DO PLANO DO ZAMBEZE (GPZ)Em 27 de Fevereiro de 1970, na sequência da adjudicação do empreendimento de Cahora Bassa ao Consórcio ZAMCO, o então Ministério do Ultramar cria o Gabinete do Plano de Desenvolvimento da Região do Zambeze (GPZ), directamente dependente do respectivo ministro, para o qual são transferidas as competências anteriormente atribuídas à Missão do Fomento e Povoamento do Zambeze e ao Grupo de Trabalho para o Zambeze.
Ao GPZ - para quem foi nomeado como director geral o Eng.º Castro Fontes "o homem Cahora Bassa" pois além de ter presidido à MFPZ e ao GTZ, foi o primeiro e único director geral do GPZ durante todo o período de construção da barragem e viria mais tarde entre 1982 e
A CONSTRUÇÃO DA BARRAGEMO ano de 1970 é o da continuação dos trabalhos preparatórios de infra-estruturas, como os "de gabinete e de ensaios laboratoriais respeitantes à definição dos pormenores técnicos do empreendimento", de entre os mais importantes se destacam o desvio provisório do rio, na margem direita, na qual se concluiu metade da escavação da abóbada e da soleira, e onde foram betonados 7 mil metros cúbicos de um total de 12 mil, na testa de montante, e escavados Na Central foram retirados Entretanto, no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) de Lisboa, procediam-se aos estudos experimentais do muro da barragem, dos descarregadores de cheias, dos circuitos hidráulicos, das cavernas da central sul e das chaminés de equilíbrio, concluíndo-se, entretanto, os desenhos de execução de construção civil referentes a grande parte da obra e dado início ao fabrico em Portugal (SOREFAME) Alemanha (SIEMMENS) e França (CGE ALSTHOM) do equipamento eléctrico, mecânico e hidro-mecânico do empreendimento, Por fim, deve-se ainda referir a conclusão dos trabalhos na estrada de Moatize - estação terminal de caminho-de-ferro, onde o cimento proveniente da fábrica da Nova Maceira (Dondo/Beira) seria transportado em "vagons ferroviários" e transbordado para adequados "camions rodoviários" construídos especialmente para o efeito e cujos exemplares se podem ainda ver ainda hoje como "peças de museu" na degradada e inoperacional estação ferroviária de Moatize - que passando pela cidade de Tete, e numa extensão de cerca de cento e sessenta quilómetros, o fariam transportar até à localidade da construção da barragem (Songo/Cahora Bassa), além da continuação das terraplanagens para a implantação das instalações do empreendimento.
"De acordo com a programação, prosseguiram em ritmo mais intenso, durante o ano de 1973, as obras de engenharia civil do empreendimento, o fabrico e a montagem dos equipamentos", numa luta contra o tempo - em resposta à "desesperada tentativa" da FRELIMO de impedir a construção de Cahora Bassa, em cujo seio o entendimento então predominante era o de que a construção da barragem significaria a "derrota" do movimento independetista, visão entretanto ultrapassada pela Revolução do 25 de Abril de 1974, e que não podendo por esse facto ser hoje comprovada, se admitia que o esforço exigido à FRELIMO pela abertura de uma nova frente em Tete (a maior parte dos guerilheiros que abriram a frente "anti-Cahora Bassa" eram os que faziam a guerilha no norte de Moçambique a partir das bases sedidas na Tanzânia e que foram desviados e infiltrados através da Zâmbia) levaria ao enfraquecimento da "frente Norte" e ao ao paralisar da guerilha na única zona crítica para o exército português em Moçambique) - tendo, nesse mesmo ano de 1973, sido concluídos grande parte dos trabalhos previstos, nomeadamente os relativos aos estudos experimentais, ao fabrico e montagem dos equipamentos, as obras de construção civil - na barragem e no centro urbano do Songo -, tendo a obra orçado, até 31 de Dezembro de 1973, em mais de dois milhões e seiscentos mil contos (valores da época).
Para se poder ter uma ideia do enorme esforço de trabalho empregue na obra e da dimensão e grandiosidade da obra, os principais meios materiais de acção afectos ao GPZ (que era, como se sabe, apenas o órgão de fiscalização do consórcio construtor (ZAMCO) da barragem) eram no final do referido ano, compostos por (6) seis aviões, (7) sete helicópteros, (230) duzentos e trinta e duas viaturas ligeiras, (5) cinco viaturas pesadas de passageiros, (52) cinquenta e duas viaturas pesadas de carga, (31) trinta e um tractores de rodas, (9) nove tractores de lagartas, (17) dezassete embarcações, e muito outro e diverso material, Para o futuro ficava a construção de um dos maiores (ainda hoje) projectos electroprodutores do mundo, que consistia no represamento de aproximadamente sessenta e três milhões de metros cúbicos de águas do Zambeze, numa albufeira - a segunda maior de África - que mede cerca de duzentos e setenta quilómetros de comprimento, para uma largura máxima de trinta e dois, correspondentes a uma área superior a dois mil e quinhentos quilómetros quadrados, fechados por uma parede de betão - a barragem propriamente dita - de cento e setenta e um metros de altura, trezentos e três de largura no topo, para uma espessura máxima de vinte e um metros e mínima de cinco.
Durante a sua construção, que durou apenas cerca de (5) cinco anos, utilizaram-se mais de quatrocentos e cinquenta mil metros cúbicos de betão, ou seja, cerca de nove milhões de "sacos de cimento", foram perfuradas e retiradas várias centenas de milhares de metros cúbicos de rocha, realizadas ou melhoradas algumas centenas de quilómetros de estradas, construída uma ponte de mais de setecentos metros de comprimento em Tete, bem como três grandes pistas de aterragem, deslocadas cerca de vinte e quatro mil pessoas que viviam na área que é hoje ocupada pela albufeira, entre muitos mais números impressionantes.
A constituição da Hidroeléctrica de Cahora-Bassa ( I )Em finais de 1974, o Governo Português atenta a proximidade da independência de Moçambique, a projecção na sua economia de todo o plano de desenvolvimento do Zambeze, o estado de adiantamento dos trabalhos do empreendimento de Cahora Bassa, os elevados encargos financeiros assumidos pelo Estado Português e a consequente necessidade de negociar com a África do Sul os respectivos preços de venda de energia, o estudo da viabilidade da construção da Central Norte e, por último, a imprescindibilidade de criar uma entidade que asegurasse a gestão do empreendimento resolve nomear um grupo de trabalho encarregado de estudar todas estas questões.
As conclusões deste grupo de trabalho e as posteriores negociações com o Governo de Transição de Moçambique levaram à constituição, por escritura pública (assinada curiosamente pela parte do Governo Português pelo actual Presidente da República Jorge Sampaio) outorgada na então cidade de Lourenço Marques, dias antes da independência deste país, ou seja no dia 23 de Junho de 1975, nos termos do Protocolo de Acordo entre o Estado Português e a FRELIMO, assinado em 14 de Abril daquele ano, de uma sociedade anónima de responsabilidade limitada, que adoptaria a denominação de Hidroeléctrica de Cabora Bassa, S.A.R.L. Esta sociedade, com sede no Songo e uma delegação em Lisboa, tinha "por objecto a exploração, em regime de concessão, do aproveitamento hidroeléctrico de Cabora Bassa, incluindo a produção de energia e o seu transporte" , constituindo encargos da sociedade a satisfação das dívidas por si contraídas, bem como pagamento do investimento efectuado no empreendimento por ela agora gerido, e cujo capital social foi distribuído entre os Estados Moçambicano e Português, e respectivas instituições financeiras, revertendo o empreendimento para Moçambique "no termo do terceiro ano social subsequente àquele a que se referir o balanço demonstrativo de que os encargos mencionados se encontrem inteiramente satisfeitos”. Estas negociações políticas em nada alteraram os prazos dodesenvolvimento do projecto, sobretudo graças ao empenho dos trabalhadores envolvidos - em especial, moçambicanos e portugueses - que conseguiram, cerca de um mês antes da constituição oficial da HCB, a 19 de Maio de 1975, ensaiar, pela primeira vez, a transmissão de energia para a subestação de Apollo, após o enchimento da albufeira que se vinha a verificar desde o início de Dezembro de 1974. Contudo, iria ainda demorar cerca de quatro anos a montagem de todos os sistemas conducentes à exploração comercial, em pleno, do empreendimento, que acabou por se verificar a 22 de Junho de 1979, com pouco mais de dois meses de atraso sobre os prazos inicialmente previstos, o que não deixa de ser o reflexo de um correcto planeamento, mas igualmente do bom entendimento e empenho das partes envolvidas. Hidroeléctrica de Cahora Bassa ( II )A partir de Contudo, em 2 de Maio de 1984, foi assinado um Acordo Tripartido entre representações dos Governos de Portugal, Moçambique e República da África do Sul, acordo que substituiu o de 1969 e em função do qual foram ajustados os contratos de fornecimento à ESKOM e a Electricidade de Moçambique (EDM) que aliado ao facto de ter sido celebrado entretanto o Acordo de Paz celebrado entre a Frelimo e a Renamo, levou a que se tivesse invertido a partir de De facto, existindo cerca de 50% o número de postes deitados por terra, a presença de minas nas imediações das linhas de transporte de energia, foi necessário proceder-se aos estudos de reabilitação das linhas - compreendendo os trabalhos de reparação das torres derrubadas em grandes extensões das linhas, a construção de largos troços de novas linhas com novas torres, novos isoladores e novos cabos, os trabalhos de verificação e colocação em condições de funcionamento da parte restante das linhas e ainda os trabalhos de desminagem - para tendo em conta os valores aproximados que custariam os respectivos trabalhos, obter junto de entidades bancárias internacionais os financiamentos necessários ao efeito. Conseguidos estes, a Administração da HCB reuniu os meios materiais e humanos que possibilitaram a sua realização, e tornaram possível a viabilização da empresa, durante muitos anos impedida duma exploração regular por circunstâncias que lhe foram estranhas.
Hidroeléctrica Cahora Bassa ( III )Terminada a reabilitação das linhas de transporte de energia, a HCB reiniciou em 1998 o fornecimento comercial à ESKOM recomeçando finalmente a cumprir a missão para que foi concebida, volvidas quase duas décadas após a suspensão do fornecimento de energia para a África do Sul. O acordo obtido com a ESKOM e o início do fornecimento de energia à ZESA, em Dezembro de 1997, marcaram uma nova etapa na vida da HCB, na medida em que a partir desta situação, outros mercados consumidores se poderão abrir à energia produzida Por outro lado, o acréscimo do caudal efluente, resultante da turbinagem de um maior número de geradores em funcionamento, permitiria ainda a exploração doutros aproveitamentos hidroeléctricos a jusante, designadamente os de M'Panda Unkua, de Boroma e de Lupata, que os estudos da Missão de Fomento e Povoamento do Zambeze já indiciavam e cujas potências a instalar estarão sempre dependentes do caudal de saída de Cahora Bassa, mas cuja energia gerada neste imenso complexo hidroeléctrico poderia ser encaminhada para todos os países da África Austral, contribuindo para um desenvolvimento de toda a região, tornando-se finalmente o "motor de arranque" do crescimento de toda a região e, consequentemente, do grande país que poderá vir a ser Moçambique. HISTÓRIA CAHORA BASSA ( FIM )Termino a “História de Cahora Bassa”, num momento em que se aproximam momentos de transformação bem positiva (para Moçambique e para Portugal) da situação do empreendimento. |